Sagrado Feminino: A mulher e sua ancestralidade
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Sagrado Feminino: A mulher e sua ancestralidade


Beautiful Illustrations by Ericka Lugo Porto-Riquenha Ericka Lugo Cada mulher que cura a si mesma contribui para curar a todas as mulheres que a precederam e a todas aquelas que virão depois dela love earth balance ground

   Gosto muito de trazer textos sobre o sagrado feminino e o poder ancestral que existe em toda mulher, primeiramente porque sou mulher e como ninguém, venho aprendendo a entender e a lidar com todas as minhas faces e fases em um amadurecimento constante.
     Com meu crescimento físico e mental (alma) sendo animus sempre desejei que meu anima dominasse meu ser, porque era muito mais seguro ser firme e forte para se proteger de tudo e de todos, vivi e cresci com a ideia de que ser "masculinizada" era a melhor opção porque "ser" menino "é mais legal". Hoje, já estudada, entendida e uma mulher de fato, voltei para dentro do útero da Sagrada Mãe Terra e aprendi a ouvir seus batimentos, suas contrações, seus gemidos de prazer e dor, aprendendo ser mulher e optando por sê-lo, aprendi a voltar à minha ancestralidade e busca o meu Eu selvagem, a mulher loba, livre e não domável que existe em meu ser. Não trago por meio desse texto qualquer questão de gênero, mas a ideia do gênero biológico para criar uma reflexão sobre os papéis sociais e a nossa real essência dominante.
      Acontece que aprende-se a "ser" mulher ou "ser" homem desde que saímos do útero da mãe. A cor rosa ou azul, dependendo do gênero biológico, nos é dada como a primeira identidade do que nos tornaremos e do que precisam construir em nós dali em diante. Com o passar dos anos cada um desses gêneros se separa, partindo do principio em que a nossa biologia é igual, porém "modificada", meninos ganham carrinhos e a rua e meninas panelas (casa) e bonecas. Desde pequenos, sem entender, nos entregam nas mãos a nossa vida e é ali que nos deparamos com nossos futuros papéis sociais, meninas e garotas se tornarão mulheres, como meninos e garotos se tornarão homens. A rua é um campo aberto para homens lutarem pela sobrevivência e dominar todo espaço que podem em uma rixa de homens-machos, enquanto nós ganhamos a casa e o nosso território é limitado entre paredes.
    Ganhar as ruas, explorar territórios de guerra e dominá-los é bastante difícil. Nós não fomos "feitas" para as ruas, não fomos feitas para dirigir ou jogar bola, quem está lá fora é o leão e não o lobo. A mulher que sai do território limitado que dão à ela possui a responsabilidade de lutar só, uma loba sozinha junto à leões famintos quatro vezes maior (ou mais). Com o passar dos séculos a mulher conseguiu ampliar seu território, obtendo a casa e conquistando as ruas e com o passar do tempo ela não estava só, a matilha estava com ela. Enfrentar a sociedade patriarcal é uma tarefa complicada, não é só "matar um leão por dia", é enfrentar leões todos os dias e ter fôlego para uivar e determinar seu próprio espaço.
   É preciso se desvencilhar de todas as nossas correntes quando se trata de trazer à tona a nossa ancestralidade. Trata-se de tirar o manto que colocaram em nós para correr livremente. A mulher ganha uma espécie de "personna" própria, um tipo de máscara que é obrigada à colocar no rosto e encarnar esse papel obrigatoriamente, exercitando para se tornar a cada dia que passa a mulher boa, a mulher de boa postura, a mulher de bom coração, a mulher mãe, a mulher esposa, a mulher fêmea e a mulher "Maria". Mulheres que não existem, mulheres não naturais, mulheres não verdadeiras, insistentes criações dos outros. Nós mulheres e homens perdemos nossos aspectos matriarcais, perdemos a noção de onde viemos, perdemos a noção de nossos verdadeiros sentidos e da nossa própria essência natural. Todos nós possuímos em perfeito equilíbrio anima e animus, que não necessariamente condizem com nosso gênero biológico quando manifestado.


"Os termos ânimus e ânima vão representar os arquétipos masculino e feminino, respectivamente, que se inserem no indivíduo em formação, dando-lhe as características da sua sexualidade afetiva e não necessariamente a biológica. Dessa forma, todos temos aspectos ânimus e ânima em nossa personalidade, havendo uma tendência para os homens serem mais ânimus e para as mulheres mais ânima." — João Carvalho Neto, psicanalista, autor do livro “Psicanálise da alma” (Site).


    Recentemente frequentei um curso de psicologia analítica e o amor genuíno ou romântico, que nos levou a refletir e entender o quão drástico é quando o homem deixa o seu feminino oculto, quando o seu feminino não pode se manifestar, porque socialmente o feminino não "pode" existir dentro dele. Nós, mulheres, temos maior facilidade em lidar com ambos, justamente porque lidamos com homens o tempo inteiro, a força e a razão são cobradas de nós simplesmente por estarmos ali, o nosso feminino oprimido é o tempo todo subjugado e testado, a intuição e a emoção ainda afloradas, já que insistentemente nos dizem que são estes os aspectos da mulher, tirando de nós o nosso masculino, como se "não pode existir relação entre os dois", dessa forma a dualidade é descartada. Com a perda do feminino no homem, surge a opressão desse "femme".
    Lidar com nossa jornada ancestral, e mais do que isso: entendê-la, é o maior ato de honra e o maior sacrifício que há, que é lidar com o entendimento obtido a partir dela. Quando enfrentamos a nossa mulher-loba-selvagem, frente a frente sem temê-la, sem nojo e sem subjuga-la, deixamo-nas livres para saírem e se manifestarem da forma como bem entendem, naturalmente e essencialmente. É quando nós optamos intuitivamente pelo parto natural humanizado, pelo contato íntimo com a nossa fertilidade e menstruação (menopausa e outros), quando aceitamos nossos corpos da forma que eles são, quando sentimos contrações, dores e prazer com emoção ou alegria, sabendo que qualquer manifestação existente dentro ou fora de nós é e sempre será parte da vida e da morte, um ciclo eterno de nascimento-vida-morte-renascimento. Aprender como lidar com nossos corpos, aprender a cuidar deles, aprender a senti-los e a tocá-los é ter a liberdade, honra e prazer de existir, de ser essência, de ser vida e daí obter a maturidade para dar ou gerar vida. O resgate da nossa ancestralidade e do nosso sagrado feminino é o maior ato de revolução contra uma sociedade patriarcal que oprimi dia após dia o feminino que existe dentro e/ou fora. É preciso mergulhar dentro de si, conhecer seus poderes e suas fraquezas para trazer de dentro para fora toda a criação e toda a existência, não somente necessário, como também importante.
    Sociedades antigas divinizavam o sagrado feminino, honrando Deusas fortes, ligadas ao oculto e obscuro, que estavam ligadas à magia e a vida, ao sangue e ao maternal, divinizando assim a feminilidade e a própria mulher, como forma de honrar tais Deusas e por vezes até mesmo a natureza e a Terra. Era complexa toda a estrutura física da mulher e por essa complexidade mistificavam-na como faziam com todas as manifestações e fenômenos naturais não compreendidos, devido a isso a mulher era considerada a principal ligação com a Terra. Era do solo que as flores e árvores cresciam, essas flores e os frutos das árvores que alimentavam parcela dos animais existentes, animais esses que serviriam de alimento à outros animais e todo esse ciclo perfeito de vida e morte constante era tão complexo — e ainda o é — quanto o poder de gerar vida, pertencente ao feminino. Esse, como vários outros é um dos principais grandes mistérios da vida. Teme-se tudo o que é desconhecido e inexplorado, a curiosidade pode prender e reprimir o desvendar ou despertar a fascinação e o amor e cuidado. 
   A mulher ancestral divinizada era a benzedeira, a curandeira, a parteira, a cartomante e conselheira, era a parideira e a criadora e ainda o é. Todas essas mulheres moram dentro de cada uma de nós, são as mulheres vindas da terra, ligadas a Terra. Todas essas mulheres foram queimadas, foram chamadas de bruxas e loucas, foram maltratadas e ainda são, todas elas foram amarradas, amordaçadas e silenciadas, e mesmo temendo-as foram gerados por elas. Toda mulher é naturalmente uma bruxa em potencial, uma selvagem, uma mulher que sabe onde ir e onde procurar, uma mulher que sabe o que quer e que não se deixa amedrontar. 

"Cada mulher tem acesso potencial ao Rio Abajo Rio, esse rio por baixo do rio. Ela chega até ele através da meditação profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma intensa alteração da consciência. Uma mulher chega a esse mundo-entre-mundos através de anseios e da busca de algo que ela vê apenas com o cantinho dos olhos. Ela chega lá com artes profundamente criativas, através da solidão intencional e da prática de qualquer uma das artes. E mesmo com essas práticas bem executadas, grande parte do que ocorre neste mundo inefável permanece para sempre um mistério para nós por desrespeitar as leis físicas e racionais como as conhecemos" — Livro: "Mulheres que correm com lobos".

   "Mulheres que correm com lobos" é um livro de bastante sucesso, justamente pela abordagem. Trata-se de uma obra que traz estórias e lendas antigas onde o aspecto feminino é ressaltado, estórias estas que trazem mensagens sobre o feminino natural e selvagem, as estórias das bruxas, sábias ancestrais que passaram por esse mesmo solo e que deixaram suas marcas (de patas!) nele. As pegadas foram apagadas pelo tempo, seus nomes e funções foram esquecidos por muitos, mas a importância delas é renovada nesse livro, que traz um pouco do que restou do grande conhecimento dessas grandes e sábias mulheres que deixaram um legado para nós: viver intensa e profundamente o nosso animal, sentir sem moderação a nossa essência e existência e manifestar-se sem receios e medos porque esse solo marcado pelo tempo é o ventre da Mãe que nos acolhe e que clama por nossas patas livres.
   Somos todas bruxas, lobas e mulheres, livres, selvagens em potencial. Permitam-se sentir, viver e principalmente reviver nossa ancestralidade tão ignorada e esquecida. Permitam-se ouvir os uivos, sentir o vento no rosto e a grama e/ou terra fria e úmida sob os pés nus, permitam-se ser abraçadas pelo calor do sol, permitam-se serem levadas ao coração das florestas para respirar o ar puro, explorar o inexplorado e desconhecido, questionar-se sobre o não desvendado e mergulhar no fundo dos mares, porque somente onde há falta de luz, há luz.

"Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça, essa instrutora, mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior." — Livro: "Mulheres que correm com lobos".

Mais informações sobre o sagrado feminino:
Galeria: Nosso sangue sagrado de cada mês
Análise: Sexualidade feminina e ocultismo (Seriado Penny Dreadful)
Sagrado feminino: As faces da Deusa - Donzela, Mãe e Anciã
Mulher e bruxaria: A bruxa, a velha anciã, a sábia e a mulher desprezada
Sagrado feminino e culto: O altar menstrual – Sagrado Feminino



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